Evento realizado na UTFPR gera debate

Realizado na última semana de novembro o “Mega Gamer” promoveu o 1º Torneio Unificado de E-sport da UTFPR e foi epicentro de uma importante discussão de gênero.

Dayse Porto (*)

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Nos dias 29 e 30 de novembro a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) foi sede do evento “Mega Gamer”, 1º Torneio Unificado de E-sport, uma competição profissional de jogos eletrônicos em crescimento no mundo. Realizado por uma iniciativa entre o Diretório Central dos Estudantes (DCE) do campus Curitiba, que organizou o evento, e a própria universidade, que cedeu o espaço e a estrutura, o evento foi amplamente divulgado na instituição e teve premiações em dinheiro e troféus e medalhas.

A grandeza do evento realizado por aluno e para alunos, tão aguardado por tantos e já com expectativas para uma segunda edição, infelizmente, foi comprometida por atitudes machistas e inércia da organização em relação ao episódio. A equipe vencedora de uma das modalidades de jogos, foi inscrita com o nome “xxS0C4D0R3S D3 UT3R0”, texto codificado para “Socadores de útero”.

Em um ambiente acadêmico onde, conceitualmente, a responsabilidade da universidade não se restringe à atender às demandas e urgências do mundo econômico, mas sim, assumir o compromisso de formar cidadãos críticos e participativos, socialmente responsáveis e que possam trabalhar contribuindo para melhorar as condições sociais do meio em que se vive. A aprovação de uma equipe inscrita em um campeonato de jogos eletrônicos, fácil ponto de referência para adolescentes e crianças, é inadmissível por contribuir para a propagação da cultura de machismo, justamente no ambiente universitário, em que se deve lutar contra todo tipo de violência.

Repercussão
O Coletivo Anália, grupo de discussão de gênero da UTFPR, publicou dois dias após o evento uma nota de repúdio à equipe e comissão organizadora, assinada pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia (GETEC), Grupo de Mulheres da FeNEA (Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura), Marcha das Vadias Curitiba, Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS) da UFPR, Sindicato dos Psicólogos do Paraná (Sindypsi-PR) e mais outras 6 entidades.

Na nota, o grupo afirma que tanto a inscrição da equipe com tal nome e a aceitação por parte da comissão organizadora, seria “apenas outra forma machista e simplória de declarar o ambiente gamer mais uma vez como um ‘clube do bolinha” e cobra que às entidades representativas dos estudantes combatam a cultura misógina e não deixem que se reproduza qualquer forma de violência ou opressão na universidade como um todo e em ambientes onde as mulheres são historicamente excluídas.

Aluna do mestrado em Tecnologia e Sociedade, Nabylla Fiori, que é integrante do coletivo e do GETEC, acredita que todas as reações provocadas pela nota de repúdio têm seu lado positivo, já que isso traz a questão de violência de gênero ao epicentro da discussão e, ainda que não da melhor forma, fomenta e evidencia o debate.

A estudante destacou os comentários agressivos de algumas mulheres que afirmaram não considerar o nome da equipe ofensivo, “Não basta que as mulheres convencidas do feminismo tentem convencer as outras da importância desta luta para a própria vida e das demais. É preciso que todas percebam isso também. Mulheres que duvidam da importância do feminismo ou que questionam as demais que discutem isso e identificam isto ou aquilo como machista, é excelente para a manutenção das opressões. É preciso que cada uma de nós também individualmente se informe e busque entender as discussões que o feminismo faz”, ressaltou.

Resposta à nota
Ao assumir uma posição e dar uma resposta à carta, a comissão organizadora, porém, enaltece que “as informações são de responsabilidade das equipes inscritas” e que, devido a grande demanda de inscrições e trabalho durante a organização do evento, não puderam se “atentar ao nome por o mesmo estar um pouco codificado e de difícil compreensão após validada a inscrição”.

Deixando de lado o compromisso de combater e não respaldar a reprodução de violência ou opressão, além da oportunidade de incentivar a participação de mulheres desses ambientes, a comissão reforçou sua postura omissa em relação ao caso declarando que a equipe em questão já havia participado de campeonatos do mesmo caráter em outras universidades e que não houve nenhuma repreensão. Ou seja, a comissão considera que não ter responsabilidade pelo nome ou pela equipe inscrita já que em outros campeonatos nada foi feito.

Por que é um debate necessário?
A escolha do nome, a inscrição aceita, a óbvia reação e a repercussão do episódio na UTFPR não são casos isolados, nem exceção as ataques sofridos pelas mulheres cotidianamente.

Na última semana, a ofensa do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) à deputada Maria do Rosário (PT-RS) em sessão na Câmara, no Dia dos Direitos Humanos, deixa claro que a cultura do machismo é um mal que atinge até o poder legislativo da sociedade brasileira.

Recentemente, o Brasil caiu 9 posições no ranking de igualdade de gênero entre os países e passou do 62º lugar para 71º, a maior universidade do país está em processo de investigação de denuncias de agressão física, psicológica e sexual de estudantes de medicina e, recente pesquisa aponta que 48% dos jovens acham errado uma mulher sair sem o namorado.

Atualmente os debates sobre feminismo e fim da violência contra a mulher têm ganhado cada vez mais fôlego. Os dados dessas pesquisas e a visibilidade que muitos casos de abuso têm tido, mediante à luta dos movimento feminista e outros movimentos sociais, evidenciam que o machismo é, no Brasil, um estigma que mata mulheres todos os dias.

O sistema de opressão e discurso de ódio contra a mulher é ensinado e tolerado nas escolas e universidades, locais que deveriam trabalhar a desconstrução dessa cultura, e naturalizado como “brincadeiras” ou problemas secundários que não se dá muita importância. A naturalização de atos que incitem ou façam qualquer alusão à violência contra a mulher e o sexismo, reafirma o quão enraizado está o machismo na nossa cultura. Desde as universidades, até a Câmara Dos Deputados.

Jornal

(*) Dayse Porto é aluna do CTCOM-UTFPR e do Curso de Extensão em Prática Jornalística.

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2 comentários sobre “Evento realizado na UTFPR gera debate

  1. Organização PARTICIPOU do debate promovido e RECONHECEU a falha e fará NOVO REGULAMENTO – pois o mesmo IMPEDIA mudar noves já inscritos – além de promover um ESPAÇO para PALESTRA sobre Games e Gênero DURANTE o evento de 2015.

    A pergunta é: O que devemos fazer mais?

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  2. Pingback: Evento realizado na UTFPR gera debate | Letícia Rodrigues

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