Homofobia, religião e um Brasil atrasado

Jéssica Pizza (*)

Homofobia e religiao

No debate entre presidenciáveis realizado pela TV Record no último domingo, o candidato Levy Fidélix, do Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), revoltou o Brasil com suas declarações homofóbicas. Ao afirmar ser um homem de família no auge de seus 62 anos, o candidato assegurou que “nunca viu dois iguais fazerem filhos” e conseguiu baixar o nível de suas palavras ao dizer que “aparelho excretor não reproduz”. Além disso, alegou que a maioria deve se posicionar contra essa minoria – a comunidade LGBT.

É uma vergonha que essas agressões verbais tenham ganhado repercussão internacional, mostrando a mentalidade retrógrada presente em nosso país. Ser uma “pessoa de família” me parece um conceito deturpado, pois minha família me ensinou que ninguém deve ser discriminado – e minha educação foi baseada em morais religiosas. O candidato fala em maioria, mas que maioria é essa que durante anos de candidatura não o deu nenhuma contagem de votos expressiva? E quanto aos filhos: com tantas crianças sem pais para dar amor, este senhor acha mesmo que alguém se preocupa em não conseguir reproduzir?

Três representações contra o candidato foram protocoladas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ajuizadas pela Comissão Nacional da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).O órgão pede a cassação do registro de candidatura de Levy Fidélix por discurso de ódio e os dois partidos políticos solicitam a multa máxima prevista em caso de propaganda ilegal, também baseada na incitação ao ódio.

É suficiente? Definitivamente não, mas posicionamentos públicos envolvem muito jogo de cintura, ainda mais em época de eleição. Se a homofobia fosse crime por lei, este homem de família teria sido preso ao deixar o debate. Como um dos países que mais registra esse tipo de crime, essa é uma medida mais que necessária: é urgente.

A atual presidente do Brasil afirma que a homofobia deve ser criminalizada, mas durante sua gestão nada fez para que isso ocorresse de fato, e ainda não assumiu o compromisso de trabalhar pela criminalização se for eleita.

 

A homofobia mais perto de nós

Imagem: Reprodução, página da Prefeitura de Curitiba no Facebook.

Imagem: Reprodução, página da Prefeitura de Curitiba no Facebook.

Ainda nesta semana, a página do Facebook da Prefeitura de Curitiba publicou uma notícia sobre uma união civil coletiva que será realizada em dezembro. A publicação dizia que “para a cerimônia podem fazer a inscrição casais homoafetivos e que queiram a renovação de votos”.

Posteriormente, a notícia foi retirada do ar porque a bancada evangélica se sentiu ofendida e criticou a publicação. A vereadora Carla Pimentel do Partido Social Cristão (PSC) apresentou uma moção de repúdio e afirmou que o conteúdo fazia “apologia do casamento gay” – referindo-se à imagem divulgada junto da notícia – e foi apoiada por outros vereadores.

A Prefeitura explicou que optou por retirar a notícia para “conservar seu caráter agregador e garantir o espaço de todos os públicos” e que continua a apoiar a igualdade em todos os âmbitos.

Essa mudança não garantiu o espaço de todos, mas privilegiou um grupo em detrimento de outro. Se todas as vezes que houver uma manifestação contrária a homossexuais, os órgãos e pessoas públicas voltarem atrás, assim como a candidata Marina Silva fez em seu programa de governo, essas visões terão mais força e vão ficar cada vez mais presas na sociedade brasileira.

Amplamente criticada na rede social pela exclusão da publicação, a equipe de mídias sociais da Prefeitura voltou atrás em um período de duas horas e publicou novamente a imagem, pedindo desculpas e assumindo que errou. Palmas pela atitude.

 

Religião e o atraso social

Nosso Estado é laico? Só na teoria. Sempre que a religião entra em cena, independente de qual seja, há uma interferência intensa nos posicionamentos públicos e esse fato tem se mostrado vastamente prejudicial em relação aos homossexuais.

Evangélicos se sentem ofendidos com a diversidade sexual, explicitam isso em seus discursose tratam a comunidade LGBT como uma ameaça. Mas parece que nada pode mudar esse pensamento.

Ofensa é viver nessa sociedade atrasada. Ofensa é ter uma morte a cada 28 horas motivada pela homofobia no país. Ofensa é acreditar que as pessoas podem ser movidas pela bondade e pelo amor ao próximo, olhar para esse cenário, e perceber que não é bem assim – e pior, está longe de ser.

 

(*) Aluna do CTCOM-UTFPR e do curso de extensão em prática jornalística.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s