Estreia da série “Sexo e as negas” ocorre “sem coitadismo”

Em meio a polêmicas de boicote e denúncias de racismo, nova série da Globo estreia brincando com os estereótipos da mulher negra

 

Danielle Serejo (*)

Estreou nesta terça-feira, 16, a nova série da Globo, que antes mesmo de estrear já causava polêmica. Sob acusações de racismo, a emissora foi notificada e autuada a dar explicações sobre o conteúdo da série, em decorrência de dez denúncias realizadas por órgãos do movimento negro e em defesa das mulheres a ouvidoria da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Miguel Falabella, em defesa do seriado de sua própria autoria,  fez questão de falar sobre a polêmica durante a coletiva de lançamento: “É uma bobagem. Só no Brasil as pessoas falam antes de ver o produto”.

Famoso por frases ácidas e de efeito em seus roteiros, Falabella repetiu o que tinha de virtude em “Sai de Baixo” e “Toma lá dá cá” – séries que o consolidaram como roteirista-, mas dessa vez com personagens negras. “E por que não?”, foi o que respondeu quando foi perguntado sobre a proposta da série, uma adaptação do seriado norte-americano Sex and The City, mas sem os adorados sapatos Manolo Blahnik em Nova York, uma versão brasileira (ou melhor, carioca), ambientalizada na Cidade Alta de Cordovil, subúrbio do Rio de Janeiro. “Qual é o problema, afinal? É o sexo? São as negas? Se é o sexo, por que as americanas brancas têm direito ao sexo e as negras não?”, indaga.

E de fato, toda a falácia envolvendo o possível enquadramento racista na série foi refutado. As personagens, apesar de terem uma vida profissional com profissões consideradas “secundárias” (uma das principais acusações dos movimentos do boicote, que afirmaram que era uma representação dos negros como subalternos na sociedade), fazem da vida pessoal o principal assunto da trama. Zulma (Karin Hils, ex- Rouge) é camareira de uma famosa atriz que sonha em encontrar um príncipe encantado, Lia (Lilian Valeska), a mais madura do grupo, já é avó, separada e recepcionista de uma grande churrascaria frequentada por celebridades, Soraia (Maria Bia), cozinheira de um jovem casal no Leblon, é a “pegadora” da turma e Tilde (Corina Sabbas), é a mais romântica entre as amigas. Em meio a esse forte elo de amizade, encontra-se também Jesuína (Cláudia Jimenez), dona de um bar e da rádio comunitária e é a conselheira do quinteto (e principal narradora da história). Todas tem algo em comum: o amor pela música. E ainda mais, com feminilidade aflorada, são independentes e tem como principal trunfo mandar no próprio corpo. Sem “coitadismo”. São mulheres muito bem resolvidas, principalmente quando o assunto é sexo, que faz, literalmente, jus ao título.

Carregado de questões raciais, de gênero e urbanas, a série não evitou os estereótipos. Os encarou. E no maior estilo “Falabella” de tiradas humorísticas. Na cena da personagem Lia, que é assediada por um cliente da churrascaria que disse preferir “carne preta”, ela rebate o assédio passando o comando da mesa para um garçom igualmente negro, respondendo “o Anselmo vai atender o seu pedido, espero que ELE seja do seu agrado”, ironizando mas mantendo a formalidade.

As personagens Zulma, Lia, Soraia e Tilde, ao som do Funk no primeiro episódio da série, já demonstraram ser o oposto da tradicional representação da mulher negra como objeto. E essa antítese fica a cargo da brincadeira direta com os estereótipos, sempre com muita ironia. Donas da malandragem carioca, elas coordenam sua própria vida como quem diz “meu corpo, minhas regras”, e não se abatem levando preconceito pra casa.

Exibida no horário das 23:20, a série narrada sob a ótica do comportamento e da história das personagens, na exibição do seu primeiro capítulo dividiu a opinião dos internautas, que comentaram suas principais impressões junto com a hashtag do nome da atração, tornando a estreia um dos trending topics do Twitter.

 

(*) Aluna do CTCOM-UTFPR. Aluna do curso de extensão em prática jornalística.

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