O Brasil, o racismo institucionalizado, Pelé e a falta de consciência negra

 

Antes mesmo da estreia, a nova série da Rede Globo, dirigida por Miguel Falabella é alvo de críticas, movimentos de boicote e notas de repúdio. O movimento negro não se calou e a importância disso é inegável.

Sexo e as Negas

Imagem: Divulgação

Dayse Porto (*)

Nova atração da Rede Globo, a série “Sexo e as Negas” nem começou e já cria polêmica em torno de seu roteiro. Na tentativa de parodiar o seriado americano “Sex and the City”, o roteirista e diretor, Miguel Falabella, abordará a vida de quatro amigas negras, pobres e que moram na periferia.

A questão por trás das polêmicas começam já pelo nome do programa, que reforça o estereótipo de que mulheres negras são sempre vinculadas a sexo. Alvo de críticas por jornalistas, blogueiros, ativistas do movimento negro e movimentos sociais que concordam com as acusações de racismo, militantes salientam que o programa (e a emissora, por tabela e histórico) tratam a população negra com inferioridade.

Com a estreia prevista para esta terça-feira (16), já foram registradas algumas denúncias na ouvidoria da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial. A Seppir alegou que as devidas providências serão tomadas caso se julgue necessário e, já existe uma página em uma rede social em apoio ao boicote do programa que já conta com 27.956 curtidas até o momento. Em pronunciamento, Miguel Falabella disse que só viu críticas na internet e que “só no Brasil as pessoas falam do programa antes de assistir”, e ainda que as pessoas precisam encarar as coisas com “mais humor”.

Em uma atmosfera recheada de discursos sobre preconceito, o Brasil vem de uma onda de episódios vergonhosos de racismo, envolvendo desde populares até pessoas públicas. No último mês, as câmeras de uma emissora de TV filmou uma torcedora do grêmio xingando o goleiro do Santos de “macaco”, um pouco antes foram atiradas bananas no jogador Daniel Alves, em campo. Também teve o caso do jovem casal que, ao publicar uma foto em uma rede social, recebeu comentários do tipo “sua escrava?”, “me vende ela”, “onde comprou?”, também no mês passado, e ainda o caso do jogador Ronaldinho Gaúcho que, no último domingo, foi xingado de “macaco” por um político mexicano, após uma partida no país.

Na última semana, nos EUA, a atriz Danièle Watts, estrela do filme “Django Livre” foi algemada e presa em Los Angeles após ser “confundida” com uma prostituta quando estava com o marido — um homem branco — em local público. Nem mesmo o jogador mais conhecido do Brasil, Pelé, foi poupado e por mais incrível que possa parecer, ele acredita que “quanto mais atenção der para isso, mais vai aguçar”, como declarou sobre o caso do goleiro Aranha. Depois que foi atacado, o goleiro não ficou quieto e exigiu do juiz, durante o jogo, alguma posição em relação ao que estava acontecendo. Aranha não foi atendido.

Historicamente, as mulheres negras ocupam as piores posições de trabalho, recebem menos que homens brancos, os negros e as mulheres brancas, são tratadas como objetos sexuais e, quando retratadas na TV, sempre como empregadas, personagens “cômicas” ou super sexualizadas. Vítimas de um Brasil, onde os 10% da população mais pobre do país é composto, majoritariamente, por negros e mulheres, 68,06% e 54,34%, respectivamente.

Refém das mazelas que os anos escravocratas deixaram de herança, essa população sofre com o racismo institucional que faz com que 91% das pessoas acreditem que existe sim racismo no país, mas apenas 3% se consideram (ou se declaram) racistas. Estudo divulgado na última quinta-feira (11) pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) constatou ainda, que mulheres negras pagam, proporcionalmente, mais impostos do que homens brancos.

E ainda têm aqueles que afirma m que “o racismo só existe porque se fala muito nele”, que são contra cotas e acham que entrar em uma universidade se resume no discurso falido da meritocracia. Esquecem, que “competência” neste caso, está relacionada a oportunidades e a história do país não permite que essa verdade seja desmentida.

O movimento negro está mais ativo do que nunca, atento e não deixa nada passar. Não seguindo o conselho de Pelé, militantes se mobilizam mais do que nunca, já alcançando alguns de seus objetivos, como no caso da série “Sexo e as Negas”, que já é cotada para não passar da primeira temporada.

(*) Aluna do CTCOM-UTFPR. Aluna do curso de extensão em prática jornalística.

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