A incógnita Marina

A candidata do PSB divide opiniões e se destaca na disputa eleitoral. Amiga íntima de acionista do Itaú, acusada de fundamentalistas e agrada ao Malafaia. O que esperar?
Dayse Porto (*)

Em pleno ápice da corrida presidencial de 2014 Marina Silva é destaque pelas posições polêmicas e por vezes, dúbias. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada na sexta-feira (29), a acreana disparou nas intenções de voto e está empatada com a presidenta Dilma Rousseff. Em caso de segundo turno entre as duas, Marina ganharia com 45% contra 36% dos votos válidos.

A ascensão da candidata do PSB nas pesquisas eleitorais mudou drasticamente o panorama presidencial. Aécio Neves (PSDB), até então segundo colocado, caiu para o terceiro lugar e não chega perto de disputar o segundo turno, polarizado por Marina e Dilma.

A presidenta, na tentativa de conter o avanço da adversária, agora ataca duramente a ex-ministra do Meio Ambiente alegando que não há recursos para a candidata realizar todos os projetos que afirma implantar em um possível governo e também questionou sua ligação com Neca.

Maria Alice Setubal, a Neca, amiga pessoal, madrinha de Marina Silva e coordenadora do programa de governo do PSB é acionista de um dos maiores bancos do mundo, com rendimento de US$ 70 bilhões só em 2013, o Itaú. Segundo dados do TSE, Neca doou R$ 670 mil para a campanha somente neste ano e é apontada como a principal influenciadora na decisão da candidata que defende a autonomia do Banco Central. O mercado financeiro tem reagido bem a ascensão de Marina, com alta de 2,12% no Ibovespa apenas dois dias após a morte de Eduardo Campos.

Entre as polêmicas relacionadas à presidenciável, que é acusada de fundamentalista pela comunidade LGBT, adversários acusam Marina de envolver ideologias religiosas em seu plano de governo. Fato que foi usado pela presidente Dilma no debate realizado no SBT na última segunda-feira (1) questionando-a sobre o hábito de consultar versículos bíblicos antes de tomar decisões, postura declarada pela própria Marina.

Em entrevista ao Jornal da Globo, ela evitou falar sobre o “casamento gay” e não confirmou — nem negou, a declaração sobre a consulta bíblica, dizendo apenas que as decisões são racionais, mas a Bíblia é uma “fonte inspiração”. Nessa semana, a alteração no programa de governo da candidata causou grande reboliço nas redes sociais e nos principais pólos de debate políticos.

A ambientalista foi fortemente atacada no debate e é acusada de mudança por pressão de Silas Malafaia, pastor da Igreja Assembleia de Deus que comemorou o recuo no Twitter, “O ativismo gay está irado com Marina! Começo a ficar satisfeito! Valeu a pressão de todos. Não estamos aqui pra engolir agenda gay […] Se não tivesse o twitaço sexta e sábado, o ativismo gay estaria rindo da nossa cara hj. Mudaram parte do pgm de Marina. Estão revoltados!”, afirmou o evangélico.

A candidata afirmou que o que aconteceu foi uma correção, mas que os direitos da comunidade LGBT estão assegurados. Ativistas e políticos criticaram Marina pelas redes sociais e sites oficiais, alegando que ela decepcionou até mesmo seus próprios eleitores. “A Marina tem uma bipolaridade política, não há coerência propositiva”, afirmou Rui Falcão, presidente do PT.

O deputado federal Ivan Valente, do PSOL, enfatizou que a proposta da candidata não é esclarecedora e que assim que começar a ser exigida irá mostrar incoerências, como já está acontecendo. “Voltar atrás por conta de uma pressão de um pastor é desmoralizante”, declarou.

O destaque do debate no SBT, Luciana Genro, presidenciável do PSOL, questionou se Marina é “uma segunda via do PSDB” e disse em sua rede social: “No caso dos direitos LGBT’s, não se pode aceitar discriminação, desigualdade e meios direitos. No futuro, ainda vamos rir por causa dessa situação de discriminação por orientação sexual. Eu vou incluir na grade curricular das escolas o debate sobre respeito à orientação sexual e também à identidade de gênero, porque os trans* sofrem muita discriminação e são invisibilizados”, ressaltou.

Agravando a situação de Marina Silva com suas posições em relação aos direitos LGBT’s, Luciano de Freitas, coordenador desse núcleo na campanha do PSB, deixou o posto depois da recuada de Marina e disse que prefere não se pronunciar sobre o assunto. Freitas redigiu o trecho do programa que enfatizava o núcleo LGBT ainda no início da campanha, quando o candidato era Eduardo Campos.

Nesse cenário político estridente, Marina Silva pode ser comparada a Celso Russomanno, uma das surpresas das eleições paulistas de 2012, ascendeu ferozmente durante a campanha eleitoral e perdeu no segundo turno para o atual prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT). Russomanno, que tinha como parte expressiva de sua força eleitoral a ligação com as igrejas pentecostais, ficou famoso pela “Patrulha do Consumidor” e como um político conservador, encontrou uma forma de ser posicionar entre os mais populares, assim como Marina. Os tucanos apostam que ela é tão fogo de palha quanto ele, e no PT, ficou a cargo de Lula assegurar que a “onda Marina” não irá se sustentar e tente ao mesmo declínio.

(*) Dayse Porto é aluna do CTCOM – UTFPR e do curso de extensão em prática jornalística.

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