Histórias invisíveis aos nossos olhos

Gari na região central de Curitiba - Foto: Danndriely Carneiro Mafra

Gari na região central de Curitiba – Foto: Danndriely Carneiro Mafra

Phelipe Heinzen (*)

Andando pelas ruas centrais de Curitiba, não é difícil encontrar aqueles que cuidam e deixam nossa cidade mais limpa, os garis, sempre com suas chamativas roupas laranjas (o que não os faz mais notados por quem, dia após dia, passa por eles) e bonés, faça chuva ou sol, frio ou calor.

Enquanto espero pelo ônibus, resolvo conversar com um desses “homens invisíveis”, que, cuidadosamente, recolhe os restos de cigarros jogados ao lado da Estação Central, apesar da lixeira há menos de cinco metros dali. Peço licença e pergunto o nome daquele senhor, que, após um sorriso, talvez pela felicidade de ser notado por uma das centenas de pessoas que, diariamente, passam por ali, responde “é Pedro”.

Pedro é um homem branco, mas moreno pela profissão, pelas horas diárias sob o sol. Trinta e oito, talvez quarenta anos, cabelos grisalhos, um espesso  bigode e olhar de quem já viu muito desse mundo. Faço uma segunda pergunta para saber o que o levou a ser gari. Percebo pelo sotaque que Pedro não é daqui, o que se confirma quando diz que veio “da cidade do Pelé”, Três Corações, em Minas, em 2004 ou 2005, trazendo sua família – Maria Lúcia, a esposa, e os filhos Rafael e Jéssica, hoje com 12 e 15 anos. Pretendia melhores condições de vida, como muitos que chegam na capital paranaense, o que o levou a trabalhar na construção civil até 2009 como pedreiro.

Após esses quatro ou cinco anos trabalhando nos canteiros de obras sem carteira assinada (já que nem ao menos tinha uma) e convivendo diariamente com a incerteza de ter ou não trabalho após o término daquele, decidiu procurar algo fixo. A chance surgiu quando a Cavo, empresa que presta serviços de limpeza pública à Prefeitura de Curitiba, abriu novas vagas. Limpando o suor que escorre pelo seu rosto, Pedro diz “era o melhor que eu podia conseguir, né? Um homem que nem estudo tem”. Apesar disso, vai logo dizendo que não se arrepende por ter trocado de profissão e que, apesar da dificuldade, consegue sustentar a família com os 1600 que ganha por mês.

Vejo que o ônibus se aproxima, então tenho que me despedir do simpático homem. Digo que foi um prazer conhecê-lo e desejo saúde e felicidades à ele e sua família. Pedro agradece. Entro no “vermelhão” e o vejo pela janela, colocando sua vassoura no desajeitado carrinho, que mais parece um latão com rodas, e seguindo sua vida.

Pode ser embaraçoso de minha parte, mas confesso que Pedro não existe. Não, não digo isso por serem sujeitos quase anônimos. Pedro realmente não existe. Mas se engana quem pensa que a história é inventada e que não passa do imaginário. Histórias como essa são escritas todos os dias em diversas cidades brasileiras, sobretudo nas capitais, com Pedros, Marcos, Josés e tantos outros nomes, garis e coletores (lixeiros não!) que limpam as ruas e a dignidade de uma sociedade que nem ao menos lhes diz obrigado.

(*) Aluno do CTCOM-UTFPR.

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