Mia Couto, um indisciplinado?

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Gi Nicaretta (*)

Mia Couto é um escritor, um biólogo, sem uma ordem hierárquica para estas atuações profissionais. É natural de Beira, Moçambique, e de nome completo António Emílio Leite Couto. Sobre este escritor e biólogo as histórias constam que fez parte da criação do hino nacional do país. Vale lembrar que Moçambique se tornou independente do domínio português em 1975 e passou a ser a chamado de República Popular de Moçambique. Mia Couto nasceu em 5 de julho de 1955, ou seja, é 20 anos mais velho e, como ele mesmo diz, “sou mais velho que meu próprio país”.

Na biologia atua na área ambiental. Antes se ser biólogo, estudou medicina na capital, Maputo, mas largou devido ao seu trabalho como jornalista e retornou à universidade para terminar seus estudos e nesse momento os caminhos o levaram a biologia.

O universo da comunicação e o mundo da biologia aparecem muito presentes nas histórias sobre a vida e a obra deste escritor que se diz um “indisciplinado”. Segundo ele, a “ciência é apenas um caminho do saber e eu quero estar aberto a outras formas do conhecimento, por isso me considerar um indisciplinado e estar na biologia apenas de passagem”.

Esta indisciplina aparece em seus textos, onde o universo fantástico está presente, em ensaios que questionam determinadas ações locais e mundiais.

Num tempo em que best-sellers que tratam de seres do mundo da fantasia, ou de palhetas de cores e muita autoajuda, é em um escritor de um continente muitas vezes lembrado de maneira “pitoresca” que vem uma das mais interessantes maneiras de se ler o mundo.

Entre seus livros que tratam do universo fantástico, há espaço para poesia, crônicas e ensaios e destas o texto “E se Obama fosse africano?”, que também dá nome a sua obra publicada em 2011, pela Companhia das Letras.

Nesta obra, há um conjunto de ensaios que mostram o olhar de Mia Couto sobre como explicar para todo um povo a prática das queimadas promovida pelos camponeses na savana africana. Como explicar para um povo todo o malefício ao ecossistema ao mesmo tempo sabendo que esta prática vem de questões históricas. Como ele mesmo escreve, está relacionada a “prestar visitas”, o que para todo um povo significa evitar conflitos, construir laços. E que estas queimadas além de proteção tinham um cunho de manutenção da vida.

É interessante como Mia Couto sempre se refere a uma biologia mais feminina, não tão objetiva e dura, mas uma “biologia nocturna sugere um saber mais feminino, sob uma luz lunar em contraste com uma certa arrogância de um outro conhecimento que se apresenta como fonte solar.” E assim traz uma “doçura” para a biologia quase com o mesmo significado da “belezura” de Paulo Freire.

Já no texto em que questiona “E se Obama fosse africano?”, discorre sobre o significado da eleição de Barack Obama e o impacto que isso causou no mundo, mas lembra que este impacto tem um item que não podemos esquecer. Obama é um cidadão norte-americano, um negro norte-americano, nascido no Havaí, com ascendência africana, mas e se ele tivesse concorrido à presidência de um país do continente africano? Em que parte da história mundial estaria? Neste ensaio, Mia elenca uma série de questões que nos faz pensar… É, e se Barack Obama fosse africano?

Das obras mais conhecidas está o premiado romance “Terra Sonâmbula”, de 1992, que ganhou o Prémio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos em 1995, e foi considerado um dos doze melhores livros africanos do século XX por um júri criado pela Feira do Livro do Zimbabué.

Mas ler Mia Couto é ler um outro mundo e não apenas o universo fantástico, mas é trazer uma “belezura” que volto a repetir, remete a Paulo Freie, com uma “doçura” que nos faz pensar também nos elementos menos doces do mundo, seria isso uma indisciplina?

 

(*) Aluna do CTCOM-UTFPR.

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