Entre pedras, livros

2013-08-15 11.16

Leonardo Ávila (*)

Quem passeia pelo centro histórico de Curitiba – principalmente pela Rua Alfredo Bufren –  desconhece um ponto de sossego, cultura e música bem no meio do caos urbano. A Livraria Joaquim fica na rua que tem como função primordial levar carros, motos e ônibus do centro para o Alto da XV.

Pobre povo motorizado, ali, no meio de uma rua esquecida pelo poder público, nos fundos de um prédio com idade respetável, há uma livraria. Livraria mesmo, não os mercados empanturrados de capas multicoloridas e superlançamentos “best sellers do New York Post”.

Homenageando a revista lançada por Dalton Trevisan e o segundo nome de Machado de Assis, a Livraria Joaquim existe desde 2006, e desde 2010 o dono é o livreiro Marcos Duarte. Formado em História pela UFPR, Marcos tem 10 anos de experiência no ramo: começou junto a um amigo num sebo em São Paulo. A primeira aventura no mercado literário durou 3 anos: “Quando o negócio acabou, recebi a indenização em livros”, conta o dono.

De volta a Curitiba, Marcos continuou o trabalho de livreiro; junto aos donos do Joaquim vendia seus livros em consignação no ponto. Veio dos primeiros donos a proposta de passar a livraria – inteira – para Marcos. Desde então, o historiador leva o negócio sozinho.

Marcos relata que o início foi difícil. “Primeiramente, devolvi todos os vinis que tinha em consignação”. O Joaquim foi conhecido, desde sua abertura, por disponibilizar discos que não eram vendidos em nenhum outro lugar. De usados raros a lançamentos. “Nunca tinha trabalhado com vinis, tive que aprender por conta dos pedidos dos clientes”, conta Marcos.

Literatura de nichos

Para se sustentar, Marcos passou a trabalhar com segmentos específicos; best sellers, por exemplo, não são o foco da livraria: “A Cabana, 50 tons de cinza, Dan Brown e outros tantos são livros que não ficam por aqui”, relata o dono. No lugar destes, o Joaquim trabalha com editoras universitárias e títulos voltados para ciências humanas e sociais. “São livros e autores que meus clientes sabem que só encontram por aqui”, diz Marcos.

Outro segmento com que o Joaquim trabalha é a literatura cult. Grandes autores, porém não badalados, como John Fante e Chuck Palahniuk são procurados frequentemente na livraria. “Aprendi em São Paulo que, para se sustentar, livrarias e sebos menores têm que trabalhar com nichos específicos, um diferencial”, revela Marcos.

Embora esta seja sua proposta de trabalho, Marcos diz que sente falta do trabalho genuíno do livreiro: ir atrás de raridades. “Fica difícil, trabalhei sozinho durante muito tempo. Agora tenho alguns colaboradores e pretendo voltar a buscar livros difíceis para clientes”, planeja o livreiro.

Crise no mercado livreiro

O dono do Joaquim lamenta o atual cenário do setor: “Editoras e grandes redes de livrarias selam contratos, muitas vezes de exclusividade de distribuição, que prejudicam médios e pequenos comerciantes do ramo.”

A situação não é difícil de entender; as grandes lojas de livros – aquelas dos shoppings – barganham preços e quantidades que os demais empresários não têm condições de acompanhar. “Muitas vezes o preço para o consumidor é inferior àquele que me é ofertado pela editora”, conta Marcos.

O problema avança até para as editoras que, por ideologia, deveriam ser contra essa lógica de distribuição. Recentemente, uma editora essencialmente marxista lançou seus livros com exclusividade para certa rede de lojas. Marcos ainda relata o caso de um livro, cujos direitos autorais pertencem ao Congresso, lançado por um dos maiores grupos editoriais do Brasil com exclusividade para a maior rede de loja de livros nacional. “Não mudaram nem a diagramação”, aponta o empresário.Rua de outras pedras

Embora a região tenha passado por várias intervenções do poder público, a rua Alfredo Bufren ficou esquecida pelas reformas; continua ali do mesmo jeito que era antes do Paço da Liberdade ser reaberto. A região, conhecida por ser ponto de prostituição, tem um problema maior, segundo Marcos: o crack.

“Já tivemos furtos na loja. Certa vez um sujeito, visivelmente alterado, entrou na loja e tivemos sérios problemas”, relata Marcos.

Ele ainda conta que, desde que assumiu a livraria, o tráfico aumentou muito na região. “Ficamos esquecidos entre tantas obras que aconteceram na região”, lamenta o dono. “Ainda assim, não trocaria esse ponto; tanto pelo espaço, como pela localização”, afirma Marcos.

Sorte nossa, e de quem procura outros tons e abrigos de cultura.

Serviço:

Joaquim Livraria e Sebo

Rua Alfredo Bufren, 51  – Centro

joaquimlivraria.wordpress.com/‎

(*) Aluno do CTCOM-UTFPR.

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