Diário de bicicleta às margens do rio São Francisco

O cavaleiro "rodante" Philipe Branquinho e sua brava bicicleta: 3300 quilômetros pelos meandros do Velho Chico

O cavaleiro “rodante” Philipe Branquinho e sua brava bicicleta: 3300 quilômetros pelos meandros do Velho Chico – fotos: Marcelo Lima

Marcelo Lima (*)

No século XIX, quatro famosas expedições tentaram desvendar os segredos do rio São Francisco, que passa pelos estados de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Pernambuco e Alagoas. Foram as viagens do francês Auguste de Saint-Hilaire, do inglês Richard Burton e da dupla germânica Martius-Spix, autorizados e incentivados pela monarquia brasileira a percorrer o país, e do brasileiro Teodoro Sampaio.

Esses viajantes foram os responsáveis, na época, pelos relatos mais detalhados sobre o rio, que é a melhor tradução da cultura brasileira, pois carrega em suas águas o caldo da economia e das tradições nacionais, arrastando, em redemoinhos e sumidouros, a vida difícil do sertanejo. Trata-se do rio brasileiro mais importante do ponto de vista cultural: às suas margens floresceram e morreram dezenas de cidades; milhares de pessoas usam suas águas para regar a lavoura, gerar energia, fornecer o peixe; as tradições folclóricas ribeirinhas não existiriam sem ele.

No século XXI, o São Francisco é visto ainda como um importante aliado para o desenvolvido do Nordeste. A maior parte da energia e da água potável consumida na região vem de suas cinco usinas hidrelétricas, como a de Sobradinho (BA) e a de Xingó (SE). Sem contar a transposição de parte de suas águas para os rincões mais secos do sertão. É, além disso, uma importante fonte de turismo.

Inspirado nas leituras que fez das quatro expedições que percorreram o São Francisco no XIX, o estudante de geografia Philipe Branquinho, 25 anos, aluno da Unicamp, decidiu trancar o último ano da universidade e fazer uma viagem de 3.300 quilômetros acompanhando, pelas diversas estradas que ligam as cidades ribeirinhas, o curso do rio. Detalhe: veio de Campinas ao Nordeste de bicicleta, e com pouquíssimo dinheiro à disposição. Sua mãe ficou de cabelo em pé. Mas à media que recebia notícias do filho, ficava mais tranquila.

Em seis meses de viagem completados em 2 de julho último, Branquinho conseguiu uma proeza invejável para qualquer mochileiro na pindaíba: gastou apenas R$ 3 mil, uma média de míseros R$ 500 por mês. Mas, claro, as privações foram muitas.

- Onde você dorme, Philipe?

- Onde dá.  Já dormi em estacionamento de hospital, de delegacia, em escolas. Mas, é claro, no conforto da minha barraca, que já estar armando quase sozinha!  Hoje, por exemplo, estou dormindo aqui mesmo, na margem do São Francisco, dentro do quiosque da agência de turismo. Mas ontem dormi na margem do rio. No começo tinha medo. Agora, espero toda a cidade dormir para depois eu ir para a barraca.

- E o banho?

- É aqui no rio mesmo. A água é limpa. É aqui que eu lavo a minha roupa também. Igual às lavadeiras que a gente pode ver entre as pedras do rio ainda hoje.

Mulher lava roupa no São Francisco

Mulher lava roupa no São Francisco

Em sua bike enfeitada com uma bandeirinha do Brasil que ganhou numa manifestação em Petrolina (PE), e uma carranca no guidão para espantar os maus espíritos, há um pouco de tudo: panela e fogareiro, colchonete, rede, roupas, guia rodoviário, peças sobressalentes para eventuais danos, cadernetas. É a grande atração de Piranhas (AL), em pleno semiárido nordestino, a 273 km de Aracaju e a 290 km de Maceió (AL).

Encontrei Branquinho perambulando pelas ruas de Piranhas, cidadezinha que lembra Paraty (RJ), só que com ares sertanejos. Conversamos durante algumas horas numa viagem de barco pelo São Francisco até o local onde a dupla Lampião de Maria Bonita foi morta pelos “macacos” da polícia volante de Getúlio Vargas, no longínquo 28 de julho de 1938. O casal e nove cangaceiros foram trucidados por policiais num ataque-surpresa, na chamada grota do Angico, município de Poço Redondo (SE). Hoje, o local é destino de pesquisadores da Universidade de Sergipe e de turistas.

Descarnado, meio franzino e bronzeado pelo “inverno” de 30 graus do semiárido, Philipe parece um Dom Quixote moderno, quebrando a pacatez da cidadezinha com o barulho das rodas de seu Roncinante de metal. Seu jeito despojado e loquaz conquistou a confiança dos moradores de Piranhas: durante sua permanência, todos queriam saber da longa viagem do “cavaleiro rodante”; fora convidado para almoçar; ganhara carona; foi chamado para um aniversário de um menino da região etc.

Além da curtição da viagem, Philipe tem objetivos, digamos, mais nobres. Desde o dia 2 de janeiro, vem passando pela maioria das cidades ribeirinhas do São Francisco a fim de conhecer melhor o Nordeste e o próprio Brasil. São 2.830 quilômetros de curso de rio. É claro que hoje em dia é mais fácil obter informações nas bases de dados virtuais do que na vida real. Mas, como bom aspirante a geógrafo e adepto da experiência, Branquinho quis vivenciar a economia, a cultura e, principalmente, as pessoas da civilização do São Francisco ao vivo.

- Eu não sou turista. Não estou consumindo as coisas daqui. Sou um viajante. Sou um morador emprestado da região. O São Francisco não é um rio comum. Nele, passam muitas culturas.

Todas as informações e impressões, anotadas em letra miúda em pequenas cadernetas e em fotografias, serão usadas no próximo ano para a realização do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A viagem é registrada, também, na internet (facebook.com/nosmeandrosdovelhochico). Mas não há um tema definido. “Ainda estou pensando. É muita informação para pouco tempo. Anotei muitas coisas, mas vou ter que escolher melhor o meu objeto de pesquisa”.

A princípio, a grande influência foram as expedições dos viajantes europeus e do próprio Teodoro Sampaio. “Eles tiveram muita coragem de desbravar o sertão. É incrível como o relato que fizeram no século XIX é tão preciso e atual”, conta. Philipe tem especial admiração pelo inglês Richard Burton, agente do governo britânico que morou no Brasil no final do século XIX e, entre outras estripulias, foi o primeiro tradutor de “Iracema”, de José de Alencar, e desceu o Velho Chico de canoa.

- Eu quero fazer o mesmo. Reuni um dinheiro, e estou negociando uma canoa com um mestre que fabrica barcos há muito tempo no São Francisco. Vou descer uns 300 quilômetros rio abaixo. Eu, minha bicicleta e uma amiga que conheci na internet. Chegando lá, vendo a canoa para um pescador.

Quando estiveram no Brasil, os viajantes estrangeiros anotaram e escreveram sobre tudo: vegetação, cultura, animais, riqueza mineral, numa linguagem próxima à literária. Philipe perde-se em meio às anotações, mas acha que já tem um tema para o TCC. Não será tão amplo quanto às observações dos naturalistas:

- Eu notei que há uma mudança significativa na cultura das cidades ribeirinhas com a transformação do sistema de transporte. Veja você: no século XIX, quando o rio era a principal via para as pessoas transportarem alimentos, produtos e tocar sua vida, havia integração entre as cidades. O rio era, literalmente, o ponto de ligação da cultura daqui. No finalzinho do século XIX, com a chegada da ferrovia, isso mudou um pouco. Aos poucos, as cidades foram dando maior importância para o trem. E, finalmente, da segunda metade do século XX em diante, com o desenvolvimento das rodovias, as cidades, que viviam quase exclusivamente do que chegava com o rio, aos poucos se afastaram de suas margens.

- Me parece que é o caso de Piranhas, que tem “duas” cidades numa só.

- É verdade, Marcelo. Aqui em baixo, a cidade é mais antiga [foi fundada em 1887]. A parte que fica em cima do morro é a cidade nova, totalmente diferente. E onde se concentra a maioria dos 21 mil moradores. A cidade velha só sobrevive por causa do turismo e por ser patrimônio cultural brasileiro. Assim como Piranhas, há vários exemplos no Nordeste.

A cidade de Piranhas - AL

A cidade de Piranhas – AL

- E isso se deve, em parte, à mudança no modal de transporte…

- É verdade. Rodando de bicicleta, por aí, a gente percebe bem essa mudança, principalmente tendo em vista os textos dos viajantes. É engraçado falar hoje em rio da integração. Muita gente que mora em cidades ribeirinhas não tem mais uma relação forte com o rio, não sabe sua história, sequer sabe aonde ele vai. Em Minas, por exemplo, conversei com alguns jovens que sabiam apenas que o São Francisco saía do estado e passava pela Bahia. E só.

- O brasileiro conhece pouco o Brasil.

- Prefere viajar para fora. Conhecer a Disneylândia. Dar dinheiro para o Pateta. Eu estou fazendo essa viagem bem por isso: conhecer melhor meu país. Depois, quem sabe, percorrer a América Latina e outras terras. Mas essa é outra viagem.

(*) Jornalista, professor da UTFPR.

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